O que é meu é seu – GILBERTO DIMENSTEIN

O que é meu é seu

GILBERTO DIMENSTEIN


FOLHA DE SÃO PAULO – 03/04/11


A tendência a trocar ou alugar em vez de comprar tem feito cada vez mais gente ganhar dinheiro
 


O SUSHIMAN RECLAMA de dor nas costas, gostaria de fazer sessões de acupuntura, mas está sem dinheiro.
Resolve seus problemas ao descobrir um acupunturista que adora sushi e também está com o orçamento apertado. Nada mais antigo do que esse tipo de troca, comum quando não existia dinheiro. Está prosperando um movimento que aposta que esse tipo de acerto está entre os negócios do futuro -segundo a revista “Time”, já é uma das dez mais importantes tendências.
A tendência a trocar ou alugar em vez de comprar foi batizada de consumo colaborativo. Isso tem feito cada vez mais gente ganhar ou economizar dinheiro. Em certos casos, muito dinheiro.
Estão se disseminando até bancos para administrar a troca de serviços, num complexo sistema de crédito e débito de tempo.

A troca do sushi pelas agulhas de acupuntura foi possível por causa do TimeBank (Banco do Tempo), em Nova York. “Nossas trocas não param de crescer”, me diz Mashi Blech, que gerencia um sistema de compensação de créditos e débitos de permutas.
Exemplo: uma pessoa que ajudou a consertar um computador durante duas horas vai ao banco e requisita duas horas de um baby-sitter para cuidar de seu filho.”O efeito mais interessante é a revitalização da comunidade, afinal as pessoas, na maioria das vezes, têm de se encontrar”, conta Mashi.

Prosperam milionários e diferentes tipos de negócio na onda do consumo colaborativo. Um deles eu testei aqui em Cambridge e funciona muito bem. É o Zipcar, que se espalhou pelo país. O carro é alugado por apenas algumas horas e deixado em pontos estratégicos da cidade. Serve para rápidos trajetos, como uma ida ao supermercado.
É muito mais barato que comprar e manter um carro. Essa é, em suma, a ideia provocativa do consumo colaborativo.
Graças a empresas como o NetFlix, não é necessário colecionar DVDs. Basta ter uma assinatura mensal e assistir a filmes 24 horas por dia, pagando por mês menos do que o preço de um DVD.
Está crescendo o número de usuários que trocam livros pela internet. No Brasil, foi criado um projeto para promover esse tipo de acerto. Em São Paulo, desenvolveram um projeto para, além de compartilhar o carro, pegar táxi em conjunto. Até um mercado para trocas de livros eletrônicos começa a ser desenvolvido.

Se você precisa de uma máquina de filmar para uma viagem com a família, basta alugá-la por uma semana. É um dinheiro a mais para quem oferece o aluguel e menos custo para quem aluga em vez de comprar.

Cresce 700% ao ano o número de sites de ofertas de quartos para alugar em casas, segundo estimativa feita por Rachel Botsman, a maior especialista do país em consumo colaborativo, autora do provocativo livro “O que é meu é seu”, a ser lançado neste mês no Brasil. Ela me pergunta: “Por que é necessário comprar um CD se é possível baixar uma música?”.

Segundo ela, a tendência vai crescer ainda mais quando as crianças que nasceram na era das redes sociais se tornarem consumidoras.

Para fugir do custo da intermediação de bancos, há programas que apresentam pela internet quem tem dinheiro para emprestar e quem precisa do empréstimo.
Assim como aquela troca do sushi é velha e levava o antiquado nome de escambo, o empréstimo pessoal do dinheiro também pode ser chamado de agiotagem. Conseguir descontos nas lojas é a conhecida pechincha, mas, agora, com a internet, chama-se compra coletiva e atrai centenas de milhões de pessoas. A aposta no consumo colaborativo deve-se a três fatores: a crise econômica que afetou o Bolsa dos países desenvolvidos (agora as pessoas pensam mais antes de gastar), a disseminação da banda larga e o surgimento das redes sociais. Além disso, o tempero ecológico: consumir menos coisas novas seria forçar menos os recursos do planeta.

Daí coisas curiosas podem ocorrer: virando parte da internet, até mesmo empoeirados sebos e brechós ganham um toque de modernidade.
Igualmente, a camaradagem de vizinhança, tão antiga e perdida nos grandes centros urbanos, se revitaliza com projetos como o Banco do Tempo.

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